terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dia Mundial sem carro. E sem crítica.

Alguém já parou pra pensar o quão escroto é esse Dia Mundial Sem Carro, pelo menos no Brasil? O evento em si não é ruim. Tá bom, vai, é mais uma forma de protesto pacífico e de chamar atenção para os agravantes do egoísmo urbano que é o transporte particular. Mas sejamos práticos e objetivos:

1-Essa idéia pseudo-revolucionária funciona muito bem na Europa, onde ela surgiu. Lá existe uma estrutura de transporte público de massa minimamente eficiente para suportar a ausência de automóveis nas ruas por um dia. Afinal, só vai para o centro de Londres, Paris, Amsterdam, etc. quem tem dinheiro. Você não vê Chevette estacionado lá.
2-Como belos pela-sacos que somos, mais uma vez replicamos uma idéia "gringa" em terra tupiniquim e nos posicionamos como os últimos revolucionários urbanos. Babacas. Isso que somos.
3-Mais uma vez atacamos as consequencias sem pensar nas causas, e muito menos sem brigar para que elas mudem. Não temos a menor infra-estrutura de ciclovia, não há integração entre o transporte de massa e ciclovias, não há onde guardar bicicletas, o clima não permite, o transporte em massa é falido, não há investimentos.

Você já se imaginou indo de bicicleta para o trabalho? Porra! Agora, imagina: Você, cidadão greenpeaciano que é, alinhado com as máximas de redução de emissões de gás carbônico na atmosfera, resolve ir para o trabalho de bicicleta, ou de metrô, ou de trem, ou qualquer merda que comporte uma porrada de gente ao mesmo tempo para justificar o ganho em escala contra a emissão de gases poluentes.

Opção a) Bicicleta: você se veste para trabalhar, usando sapatos, calça e camisa social. Vai até a garagem e, em vez de abrir a porta do seu carro, que possui ar-condicionado, senta no selim da sua bicicleta. Primeiro problema: onde carregar a pasta. Obviamente sua bicicleta não possui cestinha, a não ser que você seja uma frangona e, nesses casos, poderia resolver seu problema de culpa por emissão de gases poluentes simplesmente indo sentado no colo de alguém para o trabalho. Pedalando com uma mão no guidão e segurando a pasta com a outra, ao virar a primeira esquina, você já está suficientemente suado para torcer a camisa. Mas vamos lá, afinal de contas você já não consegue mais colocar a cabeça no travesseiro de tanta culpa por poluir o ar. Por falta de ciclovia, você anda rente ao meio-fio, encarando carros, ônibus e caminhões, sob o risco de tomar uma porrada de um deles e ir para num hospital público a bordo de uma ambulância do Samu. Pronto, toda sua economia de CO2 foi pro caralho, já que a ambulância não é movida a energia solar. Levando em conta que foi seu dia de sorte e você conseguiu sobreviver até o seu local de trabalho, você chega na sua empresa, molhado de suor, com o braço com cãimbra de tanto segurar a pasta na mesma posição, com as barras das pernas da calça todas cagadas de graxa, a costura da bunda da calça ameaçando rasgar (afinal de contas essa vestimenta não foi feita para fazer exercícios e a empresa não possui uma ducha que permita que você troque de roupa ao chegar) e a cara cinza de gás carbônico (nem todo mundo tem a mesma consciência ecológica que você e cisma em ir trabalhar de carro), você olha para a bicicleta, olha ao seu redor, e pensa "Onde eu enfio essa merda?". Sem querer correr o risco de receber uma resposta atravessada, você não verbaliza essa pergunta e se contenta em acorrentar a magrela numa grade qualquer, e reza para que ela esteja lá quando você sair.
Ao sair do trabalho, já com o nariz escorrendo e a garganta inflamada, pois você entrou no ambiente de 15°C do ar condicionado da empresa todo molhado de suor e com temperatura corporal de 45°C, você se lembra que ainda possui os outros 50% da jornada verde a serem realizados. Novamente lá vai você em cima daquela merda, encarando os carros, etc.etc.etc...
Resumindo: não fode, por mais que um dia tenhamos infra-estrutura para tal, não há como ir trabalhar de bicicleta, principalmente no Rio de Janeiro. As empresas teriam que se adaptar, e mesmo assim, só daria pra usar no máximo 4 meses no ano, quando as temperaturas são mais amenas.
Resultado:Descartado.

Opção b) Metro/Trem: As condições atuais destes meios de transporte já não suportam o contingente de demanda. Os tren/metro possuem praticamente a mesma malha que possuíam quando foram construídos/concedidos. Diariamente vemos o caos que é circular por esse meio de transporte. Imagina se fossemos todos descartar nossos veículos automotores e adotarmos os já esgotados trens/metro. Caos total.

Opção c) Onibus: Esta é a mais polêmica opção, pois os onibus poluem pra cacete, convenhamos. Mas mesmo assim, levando em consideração que estes veículos transportam mais de 60 pessoas, ainda se torna ecologicamente atrativo quando dividimos as emissões pelo número de pessoas a bordo. O problema é que, pela falta de investimento em transporte de massa ferroviário, essa opção já é obsoleta atualmente. Os onibus já andam lotados e a existência de vans concorrendo com os mesmos, realizando os mesmos trajetos, são a prova cabal da ineficiência em atender ao público interessado.


Enfim, amanhã teremos esse acontecimento, o tal do Dia Mundial Sem Carro. Minha bola de cristal pode até estar enganada, mas posso prever as machetes dos noticiários:


"População enfrente dificuldades em chegar ao trabalho no Dia Mundial Sem Carro."


"Estações do Metro lotam com o excesso de passageiros causado pelo Dia Mundial Sem Carro."

Bom, fica o recado. Certamente temos alguma idéia melhor do que essa para encarar o problema de poluição dos grandes centros urbanos. Devemos apenas refletir por poucos segundos sobre o assunto e verificar que nem sempre importar uma pseudo-solução embrulhada em papéis de novas revoluções nem sempre é o mais adequado. Tomara que sirva para o povo acordar que para sermos mais "sem carro", precisamos ser mais "com vergonha", e cobrar um governo "com mais investimentos".

Abraços a todos.

1 comentários:

cutia disse...

mas eu nao tenho carro. O que que eu faço?!?!