segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Eu desisti!

Meus caros amigos...Preciso arrumar um jeito diferente de começar os meus posts, mas enfim...Gostaria de compartilhar com todos vocês uma experiência única, com a qual venho convivendo rotineiramente. Talvez alguns de vocês nunca tenham passado por isso nem a passeio, e se assim o tiver sido, aconselho que nunca tentem. Mas eu convoco a todos a tentar resumir em poucas palavras: o que é a experiência de andar de Barcas? Meus incautos amigos, vocês não fazem idéia...



Imaginem que vocês, incautos cidadãos fluminenses, tenham a lépida sensação de poder locomoverem-se livre e confortavelmente...Pois é, meus amigos, ledo engano. E o pior, você só, e somente só, quer atravessar a maldita Baia de Guanabara, repleta de cagalhões e cadáveres, para ir trabalhar ou simplesmente regressar ao seu lar, depois de um dia de estudo. Para quem mora do lado de cá da poça, a coisa é pior. Não adianta correr, a multidão te engole.



O sofrimento começa no simples ato de querer pagar para ter um serviço prestado. Sim, você quer pagar e se aborrece mais do que simplesmente tivesse tido a brilhante idéia de pular a roleta. Em uma fila de aproximadamente 50 pessoas, você educadamente ocupa o seu lugar na 51ª posição e espera que ela ande. Quando faltam apenas 30 pessoas, começa a soar um som que deve ser o mesmo que soa quando você morre e fica sabendo que, ao invés de ir para o céu como esperado, você avista o capeta vindo buscá-lo com seu tridente relusente. Numa tentativa frustrada de controlar a lotação das embarcações, a excelentíssima empresa prestadora deste brilhante serviço instalou um dispositivo que faz com que as roletas apitem (sim, um apito irritante como aqueles que soam quando a gente arma o alarme do carro) quando a lotação se aproxima do máximo, ou quando o horário de embarcar está se esgotando. Como um peido mal dado dentro de um elevador, este som faz com que as pessoas, que num resquício de educação ainda se mantém em sua posição na fila, vão todas na mesma direção - em direção às roletas. Me fazendo lembrar aqueles momentos de 'salve-se quem puder' em que se estourava um grande balão de aniversário cheio de brindes dentro nas festas de crianças que frequentei quando pequeno, inicia-se a selvageria. O comportamento das pessoas nos faz imaginar que o mundo esteja sendo inundado por um astronômico tsunami e que aquela embarcação que ali se encontra prestes a partir seja a versão (não tão) moderna da Arca de Noé.



Partindo do princípio que você está num dia de sorte e conseguiu enfregar seu vale-transporte no leitor da roleta e passar, lá está você, pronto para embarcar naquela figura de salvação urbana. Três apitos e estamos em movimento. É claro que nessa altura do campeonato você nem pensa em sentar. Aliás, você fica torcendo para que não lhe liguem no celular, pois para fazer o simples movimento de atendê-lo, você teria que jogar alguém ao mar para ter espaço. Esbaforido pela sua grande vitória de ter conseguido embarcar, tal alegria começa a se esvair quando uma criatura com a camisa do flamengo, supostamente indo trabalhar, começa a ouvir os últimos lançamentos da Furacão 2000 no seu celular - no viva voz. Maldito seja o infeliz que inventou esse dispositivo dos novos aparelhos celulares se transformarem em verdadeiros radinhos de pilha da era moderna. Além disso, a despeito de todo aperto, esta infeliz criatura ainda consegue folhear sua edição fresquinha do "Expresso da Notícia", apreciando municiosamente a coluna "Dica do Motoboy". Mas tudo bem, afinal de contas você é um campeão. Após uns 20 minutos de sacolejo, a simpática voz do comandante anuncia, através das caixas de som herdadas da equipe de som que fez o baile de despedida da família Real: "Prezados passageiros, estaremos desviando do nosso trajeto para dar passagem a embarcação com preferência de trânsito". Pronto, a interminável viagem Niterói-Rio, que levaria meia-hora, agora vai levar pelo menos 45 minutos. A tal "embarcação com preferência de trânsito" é um navio graneleiro que transporta o equivalente a 200 maracanãs de soja, que causa uma puta marola. É claro que minha experiência me calejou, e eu não sou um dos 5 que caem na água devido a tal variação nas ondulações da Baía.



Pronto, chegamos. Mais esperada do que a votação da CPMF, a atracação se inicia. Lentamente a embarcação se aproxima, e por mais lenta que esteja, dá uma porrada firme nos dormentes do caes. Mais alguns incautos ao mar, inicia-se a descida da rampa de aço que liga a proa da embarcação ao caes. Confesso que a cada vez que visualizo a cena daquela merda descendo, eu lembro das cenas de Tróia, com os portões dos castelos descendo da mesma forma. Concluída a descida da tal rampa, um corajoso marinheiro libera as amarras dos leões ensadecidos por terra. As correntes mal batem no chão, e já tem pessoas correndo feito desesperadas, como se estivessem com uma profunda diarréia e não tivessem um banheiro para se aliviarem. Alguns parecem levitar...Pronto, a primeira parte do sofrimento passou, penso eu. Agora, só por volta das 6 da tarde, que num ato desesperado de achar que falta muito tempo para acontecer, prefiro imaginar que assim o é...



A segunda parte do sofrimento eu acho que é pior...Depois de um dia de trabalho estafante, e a idéia de ainda ter que ir para a faculdade latejando na cabeça, mais uma vez enfrento a infeliz fila de entrada. Fingindo não ouvir o barulho infernal de controle de lotação e algumas cotoveladas depois, lá estou eu dentro da estação, aguardando mais uma vez aquela aberração da construção naval. Desta vez tenho uma posição privilegiada: só devem haver umas 800 pessoas na minha frente, nem vou precisar ir pendurado na proa. O pior é esperar a barca dentro de uma estação que deve ter uma temperatura ambiente de uns 50°C. As pessoas fedem demais, vocês não fazem idéia. É um cheiro de cachorro molhado que chega a sufocar. Hoje pelo menos ninguém resolveu peidar, é realmente meu dia de sorte. Após a chegada da embarcação e a liberação do embarque, presencio a cena mais interessante de todo este processo: as pessoas que chegaram 2 horas antes e estão na privilegiada posição de front, correm como se estivessem fugindo de alguém. Eu sempre me indago: "Será que eles acham que o comandante da embarcação vai sair correndo com a barca de sacanagem, só para eles não conseguirem embarcar?" Pois é, a falta de ter alguém que olhe por ele, faz com que o povo sempre viva com o extinto selvagem de safar o que é seu.



É claro que eu não consigo um lugar para sentar. Vou mais uma vez em pé, agora com os pés latejando depois de um dia de trabalho. No meio da travessia, começa a chover. Todos fecham desesperadamente as janelas, como se fosse uma cuva ácida de grau de acidez elevadíssimo. Pronto, está consumada a tragédia. O calor dentro da embarcação é insuportável, ao ponto de me fazer sentir o atrito com a água menor, me levando a crer que a referida barca flutuaria, pelos mesmos princípios do balão de festa junina. O cheiro é insuportável, pois além de cheiro de cachorro molhado e peidos dos mais variados naipes, agora temos os grandes fanfarrões que bebem cerveja (pois é, vendem cerveja dentro deste ambiente inóspito) e se acham os caras. Minhas preces à Nossa Senhora das Barcas é atendida, e desta vez não há nenhum desvio que nos obrigue a ficar nem um segundo além dos infindáveis 30 minutos de travessia. Apenas o desembarque é mais demorado, pois com o piso molhado e escorregadio, o risco de ficar espremido entre o casco da embarcação e o caes é maior, e as pessoas sismam em ter mais cuidado nestas circunstâncias.



Pronto, estou são e salvo novamente à terra de Araribóia. Não que isso seja um motivo de felicidade, mas simplesmente faz parte da minha rotina.



O que me deixa mais feliz é que de hoje em diante, não mais precisarei usufruir dos prazerozíssimos serviços prestados pelas Barcas. Depois de passar tanto perrengue, comprei minha canoa Volkswagen 1.0 e posso fazer minha travessia vip, sem nenhum infortúnio. E além do mais, ainda contribuí para a diminuição do desemprego que assola nosso estado. Aquele nosso velho amigo Careca do Posto, depois de finalmente ter conseguido falir a lojinha de conveniência herdada de seu pai, também careca, onde a coxinha custava R$ 3,00 e sempre demorava 20 minutos para ficar pronto, estava desempregado e lutando por uma vaga no Pentágono como inspetor, mas com intuitos escusos de se tornar um Apanhador de Balões de Sacos de Lixo Preto. Como não seria aceito neste seleto clube, convidei-o para ser o comandante a minha nobre embarcação.



Pronto, agora tenho exclusividade na travessia Niterói-Rio-Niterói, e ainda por cima tenho a simpática companhia do nosso queridíssimo Careca. Mais uma vez, para não duvidarem que aqui testemunho em falso, segue uma foto tirada hoje, na nossa primeira travessia. Na foto, vocês podes me ver tendo aula de gaita de fóle com nosso queridíssimo amigo Cutia Selvagem, que não me deixa mentir, enquanto nosso amigo Careca presta seu brilhante serviço.


3 comentários:

Cutia Selvagem disse...

notavel o depoimento amargo do nosso amigo herson... na literatura mundial so mesmo o livro "desonrada", de Mukhtar Mai, se equipara em tamanha seleçao de sentimentos e denuncia social! So nao entendi o final. Vc comprou um carro hover? Foi isso?
Em relação a foto... eu lembro desse dia. Enquanto ensinava gaita de fole ao meu nobre amigo lancei uma piada faceira e ridicula: "Herson! Agora vc entra de ré que eu entro sem dó!"
O careca, obviamente, a achou hilária!

case disse...

Sem ressentimentos sobre seu comentario abaixo no meu post deixo claro q sou solidario a sua reclamação deixada aki no nosso blog onde vemos mt cultura positiva para td o brasileiro!!!

:D

Mudo disse...

Cara... muito grande o texticulo.. (um paradoxo com um trocadilho embutido! gostaram neh!?) ...

Deve ser chato! náo li nao, pq eh muito grande, mas tem cara de ser um texto chato... tah?!?!

tah aih meu comentario!